A China acaba de bloquear a aquisição da startup de inteligência artificial Manus pela Meta, em um movimento que vai além de uma simples decisão regulatória. Avaliada em cerca de US$ 2 bilhões, a transação foi vetada por questões de segurança nacional, revelando as tensões crescentes entre Pequim e Washington no controle de tecnologias estratégicas. Este não é apenas um revés para Mark Zuckerberg, mas um sinal claro de como a geopolítica está moldando o futuro da inovação.

Uma Corrida Frenética por IA no Mercado Global

A inteligência artificial tornou-se o campo de batalha das Big Techs, com empresas como Meta, Google e OpenAI competindo ferozmente para dominar agentes autônomos e sistemas de automação. A Meta, em particular, tem investido bilhões em IA, incluindo o desenvolvimento do assistente Meta AI, enquanto enfrenta pressões para manter sua relevância frente a rivais. Recentemente, a empresa anunciou cortes de 8 mil funcionários, mesmo após aportes massivos na área, mostrando o custo elevado dessa corrida.

Neste contexto, startups como a Manus, que desenvolve agentes de propósito geral capazes de executar tarefas complexas como pesquisa de mercado e programação sem intervenção humana, são alvos valiosos. Fundada por Xiao Hong e Ji Yichao, a Manus alcançou US$ 100 milhões em receita recorrente anual em apenas oito meses, um feito que atraiu a atenção da Meta. Mas o pano de fundo geopolítico, com legislações restritivas tanto na China quanto nos EUA, já sinalizava que qualquer movimento envolvendo tecnologia chinesa seria um campo minado.

Do lado americano, legisladores têm intensificado o escrutínio sobre investimentos em empresas de IA com vínculos chineses, enquanto Pequim busca coibir o que chama de 'Singapore-washing' — a prática de empresas com raízes chinesas mudarem sua sede para Singapura para escapar de regulações. A Manus, embora sediada em Singapura, tem origens na China, o que a colocou diretamente na mira de ambos os governos.

China Veta Negócio de US$ 2 Bilhões da Meta

Nesta segunda-feira (27), a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China formalmente bloqueou a aquisição da Manus pela Meta, avaliada em cerca de US$ 2 bilhões (R$ 11,4 bilhões). O órgão estatal exigiu o cancelamento da transação, iniciada em dezembro de 2025, quando a Meta planejava integrar os agentes autônomos da startup aos seus produtos, como o Meta AI. Embora a Meta tenha afirmado que a operação cumpriu a legislação aplicável, Pequim discordou, citando preocupações com segurança nacional e controle de exportação de tecnologia.

O problema central está na origem da Manus: apesar de sua sede em Singapura, a empresa foi fundada na China, e parte de sua tecnologia foi desenvolvida por uma companhia 'irmã' em Pequim. Pela legislação chinesa, isso caracteriza a transferência como uma exportação tecnológica que exige licença governamental, especialmente para uma Big Tech americana. Além disso, os cofundadores Xiao Hong e Ji Yichao foram impedidos de deixar o país desde março, enquanto a investigação do Ministério do Comércio chinês estava em andamento.

A decisão também reflete uma tentativa de Pequim de enviar um recado contra o 'Singapore-washing', prática que permite a empresas chinesas evitarem o controle regulatório ao se registrarem em Singapura. Desde janeiro, o governo chinês revisava a transação, focando na transferência de tecnologia e funcionários para fora do país, um movimento que culminou no veto oficial agora.

Geopolítica Redefine o Jogo da Tecnologia

Este bloqueio não é apenas um obstáculo para a Meta; é um marco na guerra tecnológica entre China e EUA, onde cada movimento de aquisição ou inovação é analisado sob a lente da segurança nacional. Para Pequim, impedir que a Manus caia nas mãos de uma empresa americana reforça seu controle sobre tecnologias estratégicas, enquanto envia um aviso a outros fundadores que considerem estratégias de saída similares. Para a Meta, a perda de uma startup com US$ 100 milhões em receita anual é um golpe em sua ambição de liderar a corrida por agentes de IA, especialmente em um momento de competição acirrada com Google e OpenAI.

Além disso, a decisão ocorre semanas antes da cúpula entre Donald Trump e Xi Jinping em Pequim, onde temas como tarifas e controles tecnológicos estarão na mesa. Este veto pode ser interpretado como uma jogada de posicionamento da China, mostrando que não cederá facilmente em questões de soberania digital, enquanto os EUA também apertam o cerco contra investimentos em empresas com vínculos chineses. O resultado é um mercado de tecnologia cada vez mais fragmentado, onde inovação e geopolítica caminham de mãos dadas.

Desfazer a Integração: Um Desafio Imediato

Reverter a aquisição não será tarefa fácil para a Meta, que já integrou os sistemas da Manus à sua estrutura interna desde dezembro de 2025, com executivos da startup atuando em cargos na empresa americana. Um porta-voz da Meta chegou a afirmar à BBC que a equipe da Manus estava 'profundamente integrada', o que torna a separação operacional e tecnológica um processo complexo e potencialmente custoso, tanto em termos financeiros quanto estratégicos, em um momento crucial da corrida por IA.

Fonte: Canaltech