Se você já sentiu um arrepio ao entrar em uma casa dita 'assombrada', a culpa pode não ser de fantasmas, mas de infrassom — sons de baixa frequência abaixo de 20 Hz que não ouvimos conscientemente, mas sentimos. Um novo estudo publicado na Frontiers in Behavioral Neuroscience mostra que essas vibrações, vindas de tubulações ou turbinas eólicas, elevam o cortisol e a irritabilidade, oferecendo uma explicação científica para experiências tidas como paranormais. Isso muda a forma como encaramos o medo do desconhecido.

Assombrações: Um Mistério com Raízes Ambientais

Por décadas, cientistas tentam desvendar por que certos lugares, como o Kinnitty Castle na Irlanda ou o Hampton Court Palace na Inglaterra, evocam sensações de 'presenças' ou desconforto. Estudos anteriores, como os de Richard Wiseman da University of Hertfordshire em 2003, já apontavam que variações em campos magnéticos, umidade e iluminação em locais 'assombrados' influenciam a percepção humana. Em Mary King’s Close, na Escócia, 70% dos visitantes relataram sentir frio ou serem observados em áreas de baixa umidade, mostrando que o ambiente molda experiências, não espíritos.

Outro pioneiro, o engenheiro Vic Tandy da Coventry University, sugeriu nos anos 2000 que infrassom — vibrações abaixo da audição humana — poderia ser a chave. Ele próprio sentiu arrepios e viu uma 'aparição cinza' em um laboratório em Warwick, atribuindo isso a um ventilador que emitia ondas de 18,9 Hz. Embora Tandy tenha falecido em 2005 sem concluir suas pesquisas, sua teoria abriu portas para investigações sobre como o corpo reage a estímulos invisíveis, pavimentando o caminho para estudos mais recentes.

Infrassom no Laboratório: A Prova dos Efeitos Fisiológicos

Agora, um estudo liderado por Rodney Schmaltz da MacEwan University e Kale Scatterty, publicado em 2026, trouxe evidências concretas sobre o impacto do infrassom. Eles expuseram 36 participantes a sons abaixo de 20 Hz em um ambiente controlado, usando subwoofers escondidos, enquanto tocavam música calma ou inquietante. Metade dos voluntários recebeu infrassom sem saber, e os resultados foram claros: independentemente da música, todos relataram maior irritação e desconforto quando as vibrações estavam ativas.

Mais impressionante, os níveis de cortisol — hormônio do estresse — na saliva dos participantes aumentaram significativamente sob infrassom, indicando uma resposta fisiológica real, mesmo que ninguém pudesse identificar conscientemente o som. Schmaltz também testou infrassom em uma casa assombrada comercial fora do horário de funcionamento, notando que as pessoas atravessavam o local mais rápido quando as vibrações estavam ligadas. Embora preliminares, essas experiências reforçam a ideia de que o corpo reage a estímulos ambientais de formas que a mente pode interpretar como 'sobrenatural'.

Schmaltz é cauteloso: infrassom não 'causa' assombrações, mas pode amplificar sensações em contextos onde já há expectativa de algo assustador. Ele menciona fontes comuns como tubulações antigas ou tráfego, que geram essas vibrações em prédios históricos. É uma peça do quebra-cabeça, não a solução completa, mas já suficiente para questionar narrativas paranormais.

Além do Medo: Como o Infrassom Redefine Experiências

Este estudo não apenas desafia a crença em fantasmas, mas também ilumina como o ambiente molda nossa psicologia de formas que não percebemos. Se infrassom de fontes mundanas como ventiladores ou turbinas eólicas pode alterar nosso estado emocional, isso sugere que 'assombrações' são mais sobre biologia e contexto do que sobre o sobrenatural — uma vitória para a ciência sobre o misticismo. Mais ainda, abre uma discussão sobre como projetar espaços para evitar desconforto inconsciente, seja em casas, escritórios ou locais turísticos que lucram com o medo.

Quem perde com isso são os caçadores de fantasmas que dependem de ferramentas pseudocientíficas, enquanto quem ganha são arquitetos, engenheiros e psicólogos que podem usar esse conhecimento para criar ambientes mais confortáveis ou, ironicamente, mais 'assustadores' de propósito. É um lembrete de que o que sentimos nem sempre reflete a realidade, mas sim como nosso corpo interpreta o mundo ao redor.

Próximo Passo: Mais Testes para Mapear Sensibilidades

O estudo de Schmaltz e Scatterty é um começo, mas ainda há perguntas abertas, como por que algumas pessoas são mais afetadas por infrassom do que outras, algo que Vic Tandy já ponderava. Pesquisas futuras devem explorar essas diferenças individuais e testar infrassom em uma gama maior de contextos reais, como prédios históricos ou locais de trabalho, para entender melhor seu impacto e como mitigá-lo.

Fonte: Ars Technica