Maioria dos americanos não confia em IA nem em quem a desenvolve, diz Pew

Uma nova pesquisa do Pew Research Center expõe uma fratura preocupante no ecossistema de inteligência artificial: enquanto especialistas da área se mostram otimistas sobre o futuro da tecnologia, a maioria dos americanos não compartilha do mesmo entusiasmo — e, mais importante, não confia nem na IA nem em quem está no comando de seu desenvolvimento.

O levantamento, divulgado na semana passada, captura um momento crítico em que a percepção pública sobre IA diverge radicalmente da visão dos profissionais do setor. Essa desconexão não é apenas um problema de comunicação; é um sinal de alerta sobre legitimidade, governança e aceitação social de uma tecnologia que já permeia decisões em saúde, emprego, crédito e justiça.

O abismo entre criadores e usuários

A divisão revelada pela pesquisa não é nova, mas sua magnitude chama atenção. Especialistas em IA — imersos em avanços técnicos, benchmarks e potencial transformador — tendem a enxergar a tecnologia através de lentes de progresso e oportunidade. Já o público geral, exposto a manchetes sobre deepfakes, vieses algorítmicos e demissões automatizadas, vê riscos concretos sem contrapartidas claras.

Mais revelador ainda: a desconfiança não se limita à tecnologia em si, mas se estende às pessoas e empresas que a desenvolvem. Isso sugere que o problema não é apenas técnico, mas institucional. A falta de transparência, os escândalos de privacidade e a concentração de poder em poucas big techs corroem a confiança pública de forma sistêmica.

A adoção bem-sucedida de qualquer tecnologia disruptiva depende de um contrato social implícito: a sociedade precisa acreditar que os benefícios superam os riscos e que existem salvaguardas adequadas. Quando esse contrato se rompe, a inovação encontra resistência — não por luddismo, mas por ceticismo racional.

Para a indústria de IA, essa desconfiança representa um risco estratégico. Regulações mais duras, boicotes de consumidores e rejeição em setores sensíveis (como saúde e educação) podem frear a adoção e limitar o impacto comercial. Para a sociedade, o risco é diferente: uma tecnologia poderosa sendo implantada sem legitimidade democrática ou supervisão efetiva.

A pesquisa do Pew não oferece soluções, mas diagnostica um problema que a indústria não pode mais ignorar. Transparência, auditabilidade, diversidade nas equipes de desenvolvimento e participação pública nas decisões sobre IA deixaram de ser opcionais. São pré-requisitos para que a tecnologia cumpra suas promessas sem aprofundar desigualdades ou minar a confiança social.