Marcelo Viana alerta: 'Se não dominarmos a IA, alguém fará isso por nós'

O matemático Marcelo Viana, diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), emitiu um alerta contundente sobre a necessidade de o Brasil desenvolver competências próprias em inteligência artificial. Em declaração ao Estadão, Viana foi direto: "Se não dominarmos a IA, alguém fará isso em nosso lugar".

A frase sintetiza uma preocupação crescente entre especialistas brasileiros: a corrida global pela supremacia em IA não espera retardatários, e a ausência de capacidade nacional pode significar dependência tecnológica permanente.

O Contexto da Urgência

A declaração de Viana não surge no vácuo. Enquanto Estados Unidos, China e União Europeia investem bilhões em infraestrutura de IA — desde chips especializados até modelos de linguagem de grande escala —, o Brasil ainda patina em investimentos estruturantes na área.

O IMPA, instituição que Viana dirige, é referência internacional em matemática aplicada, área fundamental para o desenvolvimento de algoritmos de IA. A posição do matemático carrega, portanto, peso técnico: ele conhece os fundamentos que sustentam a revolução atual e entende as lacunas brasileiras.

Soberania Tecnológica em Jogo

O alerta de Viana toca em um ponto sensível: soberania tecnológica. Quando um país não desenvolve suas próprias capacidades em IA, torna-se refém de decisões, políticas e interesses de terceiros. Isso vale para modelos de linguagem, sistemas de reconhecimento, automação industrial e até aplicações em saúde e educação.

"Alguém fará isso em nosso lugar" não é retórica. É uma descrição literal do que já acontece: empresas estrangeiras fornecem a infraestrutura de IA que governa desde buscas na internet até sistemas de crédito bancário no Brasil.

O Que Está em Risco

A ausência de domínio nacional em IA tem consequências práticas:

  • Dependência econômica: pagamento de licenças e serviços a empresas estrangeiras, sem captura de valor localmente.
  • Risco de segurança: dados sensíveis processados em servidores e modelos controlados por outras nações.
  • Perda de competitividade: empresas brasileiras ficam sempre um passo atrás, consumindo tecnologia em vez de produzi-la.
  • Exclusão de decisões estratégicas: padrões, normas e direções da IA global definidos sem participação brasileira.

O Papel da Matemática

Viana fala de uma posição privilegiada. A matemática é o alicerce da IA — álgebra linear, cálculo, estatística e teoria da probabilidade sustentam redes neurais, aprendizado de máquina e otimização. O Brasil tem tradição forte em matemática, com pesquisadores reconhecidos internacionalmente.

A questão é: como traduzir essa competência acadêmica em capacidade tecnológica aplicada? A ponte entre teoria e produto ainda é frágil no país, com poucos centros de pesquisa conectados à indústria e escassez de investimento em infraestrutura computacional de ponta.

O Relógio Não Para

O aviso de Viana carrega urgência porque a janela de oportunidade se fecha rapidamente. A cada mês, novos modelos são lançados, novas aplicações consolidam-se, novos padrões são estabelecidos. Entrar tarde nessa corrida significa aceitar papel coadjuvante permanente.

A declaração do matemático é um chamado à ação — para governos, universidades, empresas e sociedade civil. Dominar a IA não é luxo acadêmico; é questão de sobrevivência estratégica no século XXI.