Marcelo Viana alerta: 'Se não dominarmos a IA, alguém fará isso por nós'

O matemático brasileiro Marcelo Viana, diretor-geral do Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), lançou um alerta contundente sobre a necessidade de o Brasil desenvolver capacidade própria em inteligência artificial. "Se não dominarmos a IA, alguém fará isso em nosso lugar", afirmou o pesquisador em declaração ao Estadão.

A frase sintetiza uma preocupação crescente entre especialistas brasileiros: a dependência tecnológica em uma das áreas mais estratégicas do século XXI. Enquanto potências globais investem bilhões em pesquisa e infraestrutura de IA, países em desenvolvimento enfrentam o dilema entre importar soluções prontas ou construir capacidade autônoma — ainda que com recursos limitados.

O contexto da soberania tecnológica

A declaração de Viana se insere em um debate mais amplo sobre soberania digital e tecnológica. Atualmente, o mercado global de IA é dominado por empresas americanas (OpenAI, Google, Microsoft) e chinesas (Baidu, Alibaba), com participação marginal de outros países. Essa concentração cria riscos geopolíticos e econômicos: quem controla a tecnologia define padrões, captura valor e, potencialmente, exerce influência sobre decisões críticas.

Para nações como o Brasil, a questão transcende o aspecto comercial. IA está se tornando infraestrutura essencial em setores como saúde, agricultura, segurança e administração pública. Depender exclusivamente de tecnologias estrangeiras significa ceder controle sobre dados sensíveis, processos decisórios e, em última instância, autonomia estratégica.

O desafio brasileiro

O Brasil possui ativos importantes para competir em IA: universidades de qualidade, massa crítica de pesquisadores e aplicações práticas em setores como agronegócio e energia. Porém, enfrenta gargalos estruturais: investimento em P&D abaixo de 1,2% do PIB (contra 2,8% da média OCDE), fuga de talentos para o exterior e infraestrutura computacional limitada para treinar modelos de grande escala.

A advertência de Viana funciona como chamado à ação. Sem investimento coordenado em educação, pesquisa e infraestrutura, o país corre o risco de se tornar mero consumidor de tecnologias desenvolvidas alhures — repetindo padrões históricos de dependência que marcaram outras revoluções industriais.

Implicações práticas

O alerta do matemático ressoa em momento crítico. Governos ao redor do mundo estão definindo marcos regulatórios, investindo em chips e computação de alto desempenho, e criando programas de atração de talentos. A janela para construir capacidade autônoma é finita.

A questão não é se o Brasil usará IA — isso já é inevitável. A questão é se terá capacidade de desenvolver, adaptar e controlar essas tecnologias segundo seus próprios interesses e valores, ou se ficará à mercê de decisões tomadas em Silicon Valley, Shenzhen ou Bruxelas.

Como Viana sintetizou: alguém dominará essa tecnologia. A pergunta é quem.