A Meta está cortando mais de 700 empregos em Dublin, na Irlanda, enquanto acelera a substituição de trabalhadores humanos por sistemas de inteligência artificial avançados. Esse movimento, anunciado na última terça-feira (28), não é apenas uma demissão em massa, mas um sinal claro de como a IA está redefinindo o mercado de trabalho em tecnologia, levantando questões sobre o custo humano da automação.

Demissões em Tech: Uma Onda que Não Para

O setor de tecnologia vive um momento de transformação brutal. Desde 2020, quase 900 mil trabalhadores foram demitidos globalmente, segundo o Layoffs.fyi, com 92 mil cortes apenas em 2026. Gigantes como Amazon (30 mil demissões), Oracle (10 mil) e Microsoft (buyouts voluntários para 7% de sua força nos EUA) estão reduzindo custos e reposicionando estratégias, muitas vezes usando a IA como justificativa.

A Meta, em particular, está no centro dessa tempestade. A empresa já cortou 10% de sua força de trabalho global em 2026 — cerca de 8 mil pessoas —, além de fechar 6 mil vagas abertas. Isso vem após rodadas anteriores de demissões, como as mil posições eliminadas no Reality Labs em janeiro e outras 700 em março, mostrando um padrão de enxugamento agressivo enquanto investe pesado em inteligência artificial.

Esse cenário não é apenas sobre números. É sobre uma mudança de paradigma no setor, onde a eficiência prometida pela IA frequentemente significa menos empregos humanos. A tensão entre inovação tecnológica e estabilidade trabalhista nunca esteve tão evidente, e a Meta está se tornando um estudo de caso dessa transição.

Covalen em Dublin: 700 Vagas na Linha de Corte

Na última terça-feira (28), mais de 700 funcionários da Covalen, uma empresa terceirizada pela Meta em Dublin, foram informados que seus empregos estão em risco. A notícia veio em uma reunião por vídeo curta e sem espaço para perguntas, conforme relatado por Nick Bennett, um dos trabalhadores, à WIRED. Cerca de 500 desses funcionários são anotadores de dados, responsáveis por revisar conteúdos gerados por modelos de IA da Meta e garantir que não violem regras contra material perigoso ou ilegal.

A justificativa oficial da Meta foi clara, embora fria: a empresa planeja implementar sistemas de IA mais avançados nos próximos anos, reduzindo a dependência de fornecedores terceirizados como a Covalen. Um e-mail aos trabalhadores mencionou “redução de demanda e requisitos operacionais”, mas a mensagem subjacente é que a tecnologia está assumindo o controle. Um funcionário anônimo da Covalen resumiu a ironia à WIRED: “Estamos essencialmente treinando a IA para tomar nossos empregos”.

Essa não é a primeira vez que a Covalen enfrenta cortes. Em novembro do ano passado, 400 demissões já haviam sido anunciadas, levando a uma greve. Com as duas rodadas, o número de funcionários em Dublin pode ser reduzido pela metade, segundo o Sindicato dos Trabalhadores em Comunicações (CWU), que representa parte da equipe.

A IA Como Algoz e Salvador: Quem Ganha, Quem Perde?

Além do impacto imediato sobre os 700 trabalhadores da Covalen, que ainda enfrentam um período de “resfriamento” de seis meses sem poder se candidatar a outras vagas ligadas à Meta, esse caso expõe uma contradição maior. A Meta planeja gastar US$ 135 bilhões em IA até 2026, um valor equivalente ao investido nos três anos anteriores combinados, segundo a Bloomberg. Enquanto isso, trabalhadores que literalmente treinaram esses sistemas — testando prompts para burlar barreiras de segurança em temas como abuso infantil e suicídio — são descartados, como apontou Christy Hoffman, da UNI Global Union.

Quem ganha é a Meta, que reduz custos operacionais e acelera sua visão de um futuro dominado por IA, como sinalizado por Mark Zuckerberg ao prever que 2026 será o ano em que a tecnologia “mudará drasticamente a forma como trabalhamos”. Quem perde são os trabalhadores de base, cujos dados e esforços construíram essas ferramentas, mas que agora enfrentam incerteza. Isso não é apenas uma questão de empregos; é um alerta sobre como a automação pode aprofundar desigualdades no setor de tecnologia.

Negociações e o Futuro do Trabalho na Irlanda

O próximo passo imediato envolve o CWU, que pressiona por negociações sobre indenizações para os demitidos da Covalen e planeja reuniões com o governo irlandês para discutir o impacto da IA no mercado de trabalho local. Enquanto isso, a discussão sobre como proteger trabalhadores em um mundo cada vez mais automatizado ganha urgência, especialmente em hubs tecnológicos como Dublin, que dependem de empregos em grandes empresas de tech.

Fonte: Canaltech